Como responsável pela formação em POCUS, seja em aulas na universidade ou em cursos específicos, seja na prática clínica, percebo que as dúvidas surgem, e quanto mais se exerce, mais elas se multiplicam. Mesmo tendo sempre ecógrafos a disposição, a experiência do manuseio não elimina essas incertezas. São problemáticas comuns a qualquer profissional de saúde, e o POCUS, para além de estreitar a relação com os pacientes, reforça a importância das lições fundamentais da epidemiologia clínica.
Várias são as especialidades médicas que têm aderido de forma significativa ao uso de POCUS na prática clínica e devido a esse fator é imperativo estabelecer uma diretriz para a aplicação do POCUS, seguindo um modelo de crescimento sustentável.
O Modelo dos 4 I's do POCUS envolve a compreensão das nuances da ecografia Point-of-Care, guiado pelos quatro pilares: Identificação, Imagem, Interpretação e Integração.Este conceito deve promover a seleção apropriada dos pacientes, a ponderação das probabilidades prévias ao teste, a compreensão do espectro da doença e a expectativa de precisão do exame, tudo dentro de um contexto de avaliação alinhado com os padrões de excelência da prática clínica. Com base nisso, elaborei os 4 Is que guiam a minha prática, os quais resumo a seguir:
Identificar corretamente o problema clínico: este deve ser colocado de forma objetiva e baseado na apresentação do doente.
A partir da identificação do problema, saber aplicar que janela ecográfica devo obter, conhecendo as limitações do aparelho de ultrassom disponível, o biótopo do doente e o contexto global onde realizo o exame (tempo e local).
A partir da identificação e da imagem, saber interpretar, mais do que se vê, no curso da doença; por exemplo, o Triple POCUS na suspeita de TEP.
No final, saber integrar a informação de POCUS com a restante informação clínica do doente; muitas vezes a Integração confunde-se com a Interpretação, mas a primeira olha para os outcomes do doente e não apenas a qualidade técnica do teste em si.

É crucial garantir que POCUS seja benéfico, evitando qualquer desconforto ou dano desnecessário ao paciente. Esta abordagem não só oferece soluções adaptadas a cada cenário, mas também facilita a comunicação entre diferentes especialidades.
Estas diretrizes devem estar alinhadas com o desenvolvimento/criação de bases de dados de POCUS, nos quais a crescente evidência sobre as especificidades e sensibilidades, que convergem para o likelihood ratio apropriado, tornam o POCUS mais do que uma abordagem intuitiva e empírica, elevando-o ao status de um verdadeiro teste com o propósito de aprimorar os cuidados ao paciente.
A aplicação do POCUS não pode estar dissociada da sua integração em todo o espectro clínico. Em comparação com outros testes utilizados na prática médica, o POCUS deve considerar as suas características como um teste de imagem realizado à cabeceira do paciente, sem negligenciar especialmente os aspectos relacionados com a sensibilidade, especificidade e likelihood ratio, entre outros parâmetros que avaliam a precisão de um teste clínico.
Para assegurar a sustentabilidade na aplicação do POCUS no futuro, é essencial incorporar um plano de avaliação contínua, seguindo os critérios de qualidade de qualquer teste utilizado na medicina. Portanto, a utilização do POCUS representa uma oportunidade de aprimorar os cuidados globais ao paciente, incluindo a realização de epidemiologia clínica de excelência.
Sem dúvida que estamos perante objetivos alcançáveis! Há cada vez maior evidência científica nas aplicações de POCUS e podem explorar
aqui o que já está disponível. Para aqueles que praticam POCUS, creio que este é o caminho para um crescimento sustentado.